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Luzilá paga dívida aos judeus


A Gráfica Santa Marta é a responsável pela impressão de mais uma grande obra que surge para marcar a literatura pernambucana. A veterana romancista Luzilá Gonçalvez, presenteia a arte da leitura com mais um grande livro, o Deixa ir meu povo, um romance especial sobre pessoas de mundos e realidades diferentes e que narra uma história de amor entre um judeu brasileiro e uma brasileira não judia. Iniciada em Paris e alicerçada em lembranças recentes e antigas de um povo que atravessara desertos e florestas, sofrera sob a Inquisição, fugira dos pogroms russos e do nazismo, dividido entre a necessidade de lembrar e a urgência de esquecer, como menciona o prefácio do livro. Com um admirável projeto gráfico assinado pela designer Gisela Abad, o livro é da editora carioca Calibán, e tem 176 páginas. O preço, R$ 45. Abaixo, segue a entrevista cedida pela professora de literatura brasileira, doutorada pela Paris 7, Luzilá Gonçalvez, para o Jornal do Commercio.

JC – Há alguma relação entre o tema central do seu novo romance – uma história de amor envolvendo um judeu brasileiro – a ser lançado na próxima semana e o tema da Fliporto 2010, que será Literatura e presença judaica no mundo iberoamericano?

LUZILÁ GONÇALVES FERREIRA – O romance estava pronto há mais de dois anos, faltava uns retoques, não tem relação com Fliporto, mas o tema vem a calhar. Eu o havia mandado para um concurso nacional, ao qual concorreram mais de 800 originais e foi recomendado “para publicação”, coisa que eu já sabia, claro. Pra falar a verdade eu trazia comigo essa história há muitos anos, desde que conheci a história de Branca Dias. Desde que li as Confissões dos judeus diante da Inquisição, e os livros das denunciações. Há também inconscientemente, penso, uma espécie de dívida – não sei se essa poderia ser a expressão – para com os sofrimentos do povo judeu sobretudo nos anos do nazismo. Visitei o gueto de Varsóvia há alguns anos e naquela visita nós, os turistas, fomos convidados a ver um filme que se intitulava Nós não esquecemos, sobre os campos de concentração, o horror em sua mais dura expressão. Fico pensando como, daqui a uns cinquenta, cem anos, as pessoas dirão como foi possível que deixássemos isso acontecer. Claro, meu livro não resgata nada, é apenas um romance, não terá nenhum alcance nesse sentido – nem é a finalidade da literatura, mas...

JC – Este é o seu sexto romance, mas você já foi responsável pela organização de algumas obras e até fez biografias – que muitos consideram um trabalho exaustivo e, às vezes, ingrato. O que mais lhe dá prazer em escrever ou tudo que implica em escrita lhe apaixona e atraí?

LUZILÁ – Tudo que implica a escrita, a leitura, me atrai. O prazer maior é certamente o de escrever romances, por conta do elemento criação, invenção, o fazer existir alguma coisa que não existia antes no mundo, uma visão nova das coisas, um acontecimento, uma epifania, para usar um termo de Clarice (Lispector). E procurar encontrar, lá dentro de mim, experiências, histórias que eu nem sabia e que emergem quando escrevo e às quais dou uma forma a mais pessoal possível. Pesquisar, recuperar fatos, textos e pessoas, mergulhar em documentos antigos em busca de elementos com os quais reescrever histórias de escritores do passado – de mulheres sobretudo – trazer à tona algo que parecia sepultado, adormecido, desconhecido é apaixonante, é como encontrar pepitas num garimpo.

JC – Vale a pena escrever como ofício? Digo, o ofício de escrever, nesse mundo globalizado e digital, pode render frutos financeiros? Dá para incentivar os novos?

LUZILÁ – Escrever como ofício só é dado a alguns corajosos, persistentes, ou que descobriram um filão. Aqui no Brasil poucas pessoas fazem da literatura um ofício, podem se dar a esse luxo. Escrever num mundo global tem seu sentido, é um modo de protestar contra a massificação, de criar laços com pessoas que se dizem que essas coisas não nos representam como um todo, que há sensibilidades diferentes, distintas, que cada um de nós carrega em si seu próprio mundo, suas próprias escolhas que não são forçosamente aquelas que nos são sugeridas. Os novos devem ser alertados sim para esse estado de coisas, e acho que como escritora, como professora, como pesquisadora, tento contribuir – mesmo em ínfima parcela – a ir contra a corrente de bestificação geral. Cecília Meireles disse que não escrevia com o intuito de salvar ninguém, mas para instalar uma “contemplação participante e afetuosa”, algo assim.

JC – Que leitor deverá gostar de Deixa ir meu povo? Você imaginou um leitor para receber essa história?

LUZILÁ – Deixa ir meu povo deve interessar quem curte histórias de amor. Quem gosta de mergulhar no passado, quem quer passar algumas horas diante de um livro razoavelmente bem escrito. Judeus ou não judeus.

JC – Sua rotina hoje em dia como tem sido? Ainda dá aulas ou escreve, escreve, escreve ...

LUZILÁ – Não dou mais aulas diariamente. Uma vez por ano dou uma disciplina de literatura brasileira na Fafire (Faculdade de Filosofia do Recife). Acordo cedo, cuido de minhas plantas e, várias vezes na semana, dou umas caminhadas aqui no bairro (a escritora mora no Poço da Panela, no Recife). Depois escrevo, escrevo, escrevo, e há outras coisas: bom filme na TV a cabo, conversa com amigos, pesquisas no Arquivo Estadual na Biblioteca Pública e também reuniões com o pessoal da Companhia Editorial de Pernambuco (Cepe). Menina, e mais faria, como diria o outro, se não fora para tão grande amor tão curta a vida.

Jornal do Commercio

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