Há cerca de 70 anos, um tronco de cajacatinga desabou sobre o terreno de um engenho do Agreste pernambucano. Com quatro metros de diâmetro na base, sete de comprimento e toneladas incontadas, o pedaço de madeira maciça somava quase dois séculos de existência. Nunca foi tirado do local. Levou chuva, levou sol. Foi casa de vários bichos. Escutou vozes de tantas idades. Passou a ser parte de uma família: a de Marcelo Silveira. Agora, o artista reprocessa toda essa história no megatrabalho que vai ocupar 35m² de chão do pavilhão do Parque Ibirapuera entre setembro e dezembro deste ano. É a 29ª Bienal de São Paulo ganhando formas, a partir das escolhas do curador Moacir dos Anjos. De Pernambuco, como ele, só Silveira e Paulo Bruscky estão, por enquanto, entre os 38 nomes confirmados (do Brasil e de fora) para compor esse que é considerado o principal evento de arte contemporânea do País.
A obra em processo de Marcelo Silveira é inédita e figura entre os dois trabalhos que o artista leva à bienal – o outro é uma composição de colagens em preto-e-branco. Cajacatinga e uma paisagem conhecida, como batiza sua nova produção, está sendo construída para ser montada como um amplo relevo escultórico sobre o piso do pavilhão. Um retalho do que foi o tronco da família, um quebra-cabeça composto por muitas lâminas de memória lixada. “Escuto falar desse tronco desde pequeno. Vi a vida inteira. Era uma atração turística do engenho. Um símbolo da família. Ninguém mexia”, conta Silveira, que teve que pedir autorização aos parentes e ao Ibama para extrair o elemento da sua paisagem original. Na operação, trator, caminhão e vários homens. “Tinha duas opções: ou levava o tronco ou produzia uma escultura. Optei pela segunda. A história continua sendo lembrada, de outra forma. Na verdade, não queria manter essas marcas (do tempo e da natureza)”.
Pouco depois de confirmar sua presença na Bienal de São Paulo – da qual participa pela primeira vez –, Silveira decidiu se mudar para o engenho da família, próximo a Gravatá (onde nasceu, em 1962). Desde então tem se concentrado no trabalho e já tem prazo marcado para finalizá-lo: julho. Dia e noite, ele mais cerca de 20 assistentes (todos trabalhadores rurais) labutam num galpão para realizar o projeto, que já vinha maturando desde antes. Coisa cada vez mais difícil de se ver em um artista contemporâneo – geralmente alguém que concebe, mas não bota a mão na própria massa. Nesse processo, ele limpa, talha e alisa a madeira, conferindo novas texturas às suas lembranças. Antes disso, o tronco foi entregue todo fatiado, para que ele pudesse espalhá-lo horizontalmente sobre o chão. No fim, a obra vai pesar cerca de 1 tonelada.
Quase toda bienal tem algum trabalho de grande dimensão que chama atenção do público. Um fusca pendurado, uma cidade de açúcar. É provável que aconteça o mesmo com a obra de Silveira – talvez de uma maneira menos espetaculosa. Este é um trabalho que une a artesania à obsessão melindrosa do pernambucano pelas formas. Em suas mãos, elas ganham, por vezes, contornos quase amorfos – ou na fronteira de qualquer associação mais imediata. “Embora se deixe, em contato ligeiro, classificar como escultura, parte significativa dela (sua produção) não cabe nas convenções que demarcam o campo escultórico, esgarçando mais ainda as fronteiras, há muito já frágeis, que o apartam dos campos da pintura, do desenho ou da instalação”, define o próprio Moacir dos Anjos, em um dos textos críticos que escreveu sobre o artista, em 2005.
A relação de Silveira com a madeira não vem de hoje. Há cerca de 15 anos ele trabalha com sobras do material que, aliás, ajudou a consagrá-lo. Dessa vez, no entanto, a proposta parece bem mais desafiadora.
BRUSCKY
Diferente de Marcelo Silveira, Paulo Bruscky foi convidado para expor trabalhos mais antigos. Entre eles, a série O que é arte? Para que serve?, dos anos 70. “Como questiona o próprio sistema artístico, Moacir me disse que pensou nela desde o início como uma obra fundamental”, conta o artista, referindo-se ao enfoque do evento este ano no potencial político da arte. Independente do tema, a presença do pernambucano é sempre uma oportunidade de repensar a realidade em qualquer que seja o contexto.
“Em um país como o Brasil ser artista já é uma atitude política”, pontua ele. Mas nem todo artista tem o peso de marcar uma geração e ser um desses nomes controversos e cruciais para entender a produção brasileira como é Bruscky. Aliás, esta será a terceira vez que ele participa da Bienal de São Paulo. A primeira foi em 1989 e segunda, em 2004, quando ganhou uma sala especial para abrigar uma réplica de seu ateliê.
O artista e o próprio Moacir estão sendo avaliando ainda a possibilidade de ele refazer, na abertura do evento (dia 20 de setembro), a escultura de gelo em forma de fogueira que apresentou em 1974, no Salão Global. Mas nada foi fechado por enquanto, a não ser o trabalho citado acima e o conjunto de intervenções que realizou em jornais, na mesma época.
Escolha dos artistas está sujeita a vários filtros
Paulo Bruscky e Marcelo Silveira compartilham com Moacir dos Anjos não apenas o local de origem. Além de conterrâneos do curador da 29ª Bienal de São Paulo, os artistas pernambucanos são nomes que já passaram anteriormente por outros de seus projetos curatoriais. Silveira participou do Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP, em 2007, da exposição coletiva Geração da Virada 10+1, no Instituto Tomie Ohtake (SP), em 2006, e de mostra no próprio Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), em 2004 – época em que Moacir ocupava o cargo de curador e diretor da instituição recifense. Bruscky integrou o projeto Quando foi 1968?, concebida por ele na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em 2008. Ambos são nomes veteranos e consagrados.
É interessante observar que nessa primeira lista dos artistas confirmados para o evento (veja arte ao lado), pelo menos um terço já esteve antes no filtro de Moacir, incluindo brasileiros e estrangeiros. Efrain Almeida (CE/RJ) e Cildo Meireles (RJ), por exemplo, passaram pela sua gestão no Mamam. Tarimbado no circuito nacional e internacional, Meireles é um dos artistas mais pesquisados pelo curador. Na bienal, ele mostrará dois trabalhos novos, incluindo uma intervenção que vai ocupar, fora do pavilhão, aposentos de quatro prédios de esquina de um mesmo cruzamento (Homeless home). Em 2007, o artista também integrou a lista de Moacir na Bienal do Mercosul, em Porto Alegre. O mesmo aconteceu com o belga radicado no México Francis Alÿs.
Todos eles, incluindo os pernambucanos, sinalizam um certo direcionamento do olhar de Moacir, que culmina nesse projeto expositivo da bienal, cujo propósito é ressaltar a arte como uma área potencialmente política – num sentido além do partidário. “É natural que o curador tenha interesse por alguns artistas. Alguns eu já venho acompanhando há um bom tempo. Mas os interesses mudam também”, argumenta Moacir. “Com a maior parte dos artistas, na verdade, eu nunca trabalhei antes. As escolhas não foram deliberadas nesse sentido. Você vai acumulando repertório e atualizando. Quando surgiu a bienal, eu já tinha uma série de artistas em mente”, revela. Alguns ele conheceu mais de perto só no ano passado, época em que cursava seu pós-doutorado em Londres. Artistas como o lituanês Deimantas Narkevicius foi uma dessas descobertas. Com 45 anos, sua principal linguagem é a audiovisual, que, aliás, se impõe entre os trabalhos dos artistas dessa primeira lista anunciada. De acordo com o curador, que assina a mostra da bienal com Agnaldo Farias, parceiro de outros projetos, a preponderância de vídeos também não foi intencional. “A maior parte da nossa relação com o mundo é mediada por telas”, justifica.
Ele pondera que, nas escolhas apresentadas, não houve critério de suporte dos trabalhos, idade, tempo de carreira ou de obra, e mesmo em relação à nacionalidade dos artistas. Ainda faz a ressalva de que o fato de esses nomes terem sido anunciados primeiro não tem a ver com uma questão hierárquica, mas com os trâmites dos convites e o próprio calendário do educativo da Fundação Bienal, que precisava iniciar suas atividades. “Alguns nomes que virão também são tão fundamentais quanto esses”, diz o curador, que garante divulgar o restante da lista até o início de maio. No total, 120 artistas ou mais irão compor a grande mostra. Outros pernambucanos podem ser chamados, incluindo jovens artistas. “Muitos nomes já estão na nossa mira”, antecipa Moacir.
Geralmente um curador não tem apenas um critério de escolha, mas vários. No caso da Bienal de São Paulo, Moacir dos Anjos fez questão de frisar a participação de brasileiros, demais latino-americanos e africanos. “Muitos eventos de arte contemporânea têm uma perspectiva eurocêntrica. A nós interessa atuar na diferença, sem ser gueto”, pontua o curador. “Aqui não cabe o termo periférico. É só um ponto de vista do local onde o evento está inserido”. Não deixa de ser uma atitude política essa de Moacir, tanto quanto o discurso que os artistas pretendem proferir por meio de suas obras. “No geral, são nomes que matizam o discurso hegemônico”, resume o curador.