
As criações que saem das panelas pernambucanas perdem em fama nacional para o tutu mineiro, o tucupi paraense ou para o vatapá baiano. Não há como negar que, apesar de termos pratos singulares como pirão de peixe, buchada de bode, sarapatel, arrumadinho de charque e chambaril, ainda não conseguimos difundir por outros cantos do mundo os nossos patrimônios culinários como itens representativos do país. E não é por incompetência de nossas cozinhas, nem tampouco por falta de importância histórica. Como já havia explanado Gilberto Freyre, os engenhos pernambucanos foram os primeiros laboratórios para a base da formação da culinária brasileira. O mestre de Apipucos ainda alertou que "um povo que não cuida de seu patrimônio culinário corre sério risco de perder a identidade". E estávamos, ao certo, correndo o risco, afinal entre as obras de Freyre e a atualidade, abriu-se uma lacuna literária para legitimar a suculência e riqueza dos quitutes pernambucanos. Para fazer justiça e tentar reverter esse rumo contraditório, o jornalista Bruno Albertim lança hoje, às 20h, na Torre Malakoff (Bairro do Recife) o livro Recife - guia prático, histórico e sentimental da cozinha de tradição.
A obra bilíngüe, com 162 páginas, apresenta e perfila 30 endereços de bares e restaurantes da cidade que primam em manter em suas cozinhas pratos tradicionais pernambucanos. Vale salientar que nenhum dos estabelecimentos apontados pelo autor pagou um centavo sequer para estar na publicação. O livro traz também uma lista de receitas clássicas, acompanhadas por apetitosas fotografias de Bárbara Wagner e Sérgio Lobo, montadas sob design gráfico de Mazinho Constantino. A produção é de Daniela Rorato. O resultado é um guia essencial, item que faltava nas bolsas de comensais do próprio estado e, principalmente, de turistas que desembarcam ávidos por sabores típicos. Missão nada fácil sem um instrumento como a obra de Albertim, já que a cidade esconde suas preciosidades como recantos culinários que não devem ser desvendados, deixando vir à tona uma mania estranha de não querer (ou seria saber?) divulgar o que se tem de melhor.
Bruno Albertim faz do livro não apenas um guia prático, como o mesmo sugere. O subtítulo Ou como se dar bem no reino da peixada, do cozido, do sarapatel e do caldinho dá o tom para o bom humor de um texto que acentua a verve jornalística e curiosa do autor. Bruno recorre o tempo inteiro à história da alimentação no Brasil e incrementa sua narrativa com fatos da própria infância. Denuncia singelamente o nascimento de seu interesse por cozinha no quintal de Vó Maria, lotado de galinhas que viraram cabidela. "Comer sem farinha, dizia Vó Maria, é o mesmo que não comer", escreve ele para mostrar que aquela senhora de Goiana, entre a década de 70 e 80, sabia tanto sobre a cozinha pernambucana quanto o folclorista potiguar Câmara Cascudo.
O livro, com 13 mil cópias iniciais, chega às livrarias com patrocínio da Prefeitura do Recife, Fundarpe, Netuno Pescados, Famous Grouse e apoio do Grupo Pontes Hotéis, gráfica Santa Marta e da Empetur. O tema, com certeza, dá caldo para mais pirão. "A idéia é fazer uma atualização anual do guia", adianta Albertim, que lança também este ano o livro Ervas e temperos da cozinha de Pernambuco, pelo Sebrae e editora Senac.
Serviço
Lançamento do livro Recife - Guia prático, histórico e sentimental da cozinha de tradição, de Bruno Albertim
Quando: Hoje, às 20h
Onde: Torre Malakoff (Praça do Arsenal, s/n, Bairro do Recife)
Quanto: R$ 30 (no lançamento) e R$ 35 (nas livrarias)
Informações: 9179-8331 ou 3465-9266