Por um choque de calendários, dois eventos “mega” do circuito literário do Estado acontecem um “colado” ao outro – a 3ª edição da Fliporto, encerrada domingo, e a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que começa amanhã no Pavilhão do Centro de Convenções. Por tão próximos, será que as discussões de um não esvaziarão as do outro?
“Encaremos os dois eventos como complementares, de características distintas, e que podem somar forças para trazer a literatura para a agenda da mídia e da sociedade. Não houve portanto preocupação com qualquer choque nas programações”, explica Homero Fonseca, curador literário da Bienal do Livro. Homero reuniu para esta edição um elenco de escritores e estudiosos de vários países como Alemanha, França, Moçambique, Portugal e Venezuela, num diálogo crítico com nomes locais e de outras partes do Brasil.
Como aconteceu nos anos anteriores, o evento se desenrola durante o feriadão de 12 de outubro – nada mais justo, afinal a parcela infantil do mercado literário é milionária. A diferença desta edição é que ela é voltada às interfaces da literatura. Homero justifica a temática: “Estamos em plena era da intertextualidade e conexão entre os vários saberes. O caso do cinema e da televisão, por exemplo. Além de fornecer material em abundância para esses veículos, a literatura também tem se nutrido deles. O ritmo, a visão por vezes fragmentária, os cortes são recursos daqueles meios incorporados cada vez mais pelos escritores. Além disso, a relação da literatura com a psicanálise, a música, o teatro, as artes, as novas tecnologias, é tema de grande atualidade”, diz Homero.
“Penso que, sem abdicar de seus atributos essenciais, a literatura não pode se enclausurar em si mesma, está sendo chamada para se abrir ao mundo. Como isso está se dando e se dará? É uma das coisas que queremos discutir, dando espaço para que se manifestem apocalípticos e integrados”, continua o curador.
Essa perspectiva de partir de várias áreas diferentes para chegar à literatura deu resultado a uma programação mais dinâmica (ver destaque de cada dia na página lado), em que não ficam de fora exibição de filmes e documentários. Isso tudo sem falar numa oficina gastronômica que vai levar o público para colocar a mão na massa em receitas que fizeram a cabeça de nomes como Gilberto Freyre, e discussões sobre sexo, com a escritora alemã Ariadne von Schirac, que vai falar sobre seu último título Der tanz um die lust (A dança em torno do prazer), ainda não foi traduzido para o português.
Segundo Homero Fonseca, são muitas as preocupações desta edição da feira. “Num evento da natureza de uma Bienal, os vários públicos devem ser contemplados e não apenas a vanguarda, unindo as características de feira de livros e de espaço de reflexão e discussão sobre a vida e o fazer literário. A programação mescla autores consagrados e novos, brasileiros, com Ferréz, Cíntia Moscovich, Santiago Nazarian, e estrangeiros, os ‘novíssimos’ portugueses Jorge Reis-Sá e Maria João Cantinho e a alemã Ariadne von Schirac.”
“Entre os consagrados, nomes da ABL, como Evanildo Bechara, Sérgio Paulo Rouanet e Moacyr Scliar. Espaço para os escritores locais, que farão palestras, debaterão, lançarão livros. E uma forte preocupação com a cidadania. Um bom exemplo disso são aulas abertas do pré-vestibular, preferencialmente para os alunos da rede pública, dadas por professores dos colégios particulares). Também inovamos com o Espaço Universitário, onde a produção das universidades locais, em várias áreas, será apresentada e discutida, numa área charmosa, espécie de roda-viva instigante”, explica Homero.
O evento vai prestar homenagem ao romancista, teatrólogo e fundador do Teatro Popular do Nordeste, Hermilo Borba Filho, que neste ano completaria 90 anos. Seguindo outros eventos literários deste ano no Brasil, a Bienal do Livro presta homenagem aos 80 anos de Ariano Suassuna que irá ministrar uma de suas aulas-espetáculo durante a programação.
De acordo com o produtor cultural da Bienal do Livro, Rogério Robalinho, o evento atraiu em 2005 cerca de 430 mil visitantes, quase 80 mil a mais do que o estimado pela organização. “A expectativa para a 6ª edição supera o número de 550 mil visitantes, isso porque os atrativos estão ainda mais diversificados”, declara o organizador.
A previsão é que sejam vendidos 15 milhões de livros no evento. Cerca de 240 editoras montarão estandes no pavilhão, onde vão acontecer mais de 300 lançamentos de títulos – em 2005, foram cerca de 200.
» O site oficial do evento é o www.bienalpernambuco.com